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Revista Internacional de Investigación en Ciencias Sociales

versión On-line ISSN 2226-4000

Rev. Int. Investig. Cienc. Soc. vol.22 no.1 Asunción jun. 2026

https://doi.org/10.18004/riics.2026.junio.119 

Artículo Original

O papel da família na inclusão escolar de alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA): um estudo de caso no Nordeste brasileiro

Autism Spectrum Disorder: an analysis of the relationship between parental involvement and academic and social outcomes

Mônica Vanderlei dos Santos Bezerra1  * 
http://orcid.org/0009-0002-5468-376X

Luís Ortiz Jiménez2 
http://orcid.org/0000-0002-3943-1989

1Universidade Federal de Alagoas - UFAL, Brasil

2Universidad Autónoma de Asunción, Paraguay


RESUMO

Este estudo analisa o papel da família na inclusão escolar de alunos com o Transtorno do Espectro Autista -- TEA, com ênfase na relação entre o envolvimento parental e o desenvolvimento acadêmico e social das crianças. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, de natureza descritivo-exploratória, com delineamento de estudo de caso, realizada no Centro Horizonte Azul -- CHA (nome fictício), localizado no município de Arapiraca -- AL, Brasil. A amostra foi composta por 62 participantes, incluindo 10 crianças com o TEA, 41 responsáveis e 11 profissionais da equipe multiprofissional. A coleta de dados foi conduzida por meio de triangulação metodológica, envolvendo entrevistas semiestruturadas, questionários semiabertos, observação participante e análise documental. Os dados foram analisados a partir da análise temática, permitindo a identificação de categorias relacionadas ao engajamento parental, à comunicação entre família e escola, à continuidade das intervenções no ambiente doméstico e aos condicionantes do envolvimento familiar. Os resultados evidenciam que o envolvimento familiar atua como variável mediadora central no desenvolvimento das crianças, contribuindo para a consolidação de habilidades comunicativas, sociais e comportamentais. Observou-se que famílias mais engajadas favorecem a generalização das aprendizagens e ampliam a eficácia das intervenções. Em contrapartida, limitações socioeconômicas e institucionais impactam o nível de participação parental. Conclui-se que a inclusão escolar de alunos com o TEA deve ser compreendida como um processo sistêmico, dependente da articulação entre família, escola e equipe multiprofissional, sendo proposto o Modelo Sistêmico de Inclusão Mediada pela Família (MSIMF).

Palavras-chave: Transtorno do Espectro Autista; inclusão escolar; envolvimento familiar; educação inclusiva; desenvolvimento infantil

Abstract

This study analyzes the role of the family in the school inclusion of students with Autism Spectrum Disorder (ASD), with an emphasis on the relationship between parental involvement and the academic and social development of children. This is a qualitative, descriptive-exploratory study with a case study design, conducted at the Centro Horizonte Azul -- CHA (fictitious name), located in the municipality of Arapiraca -- AL, Brazil. The sample consisted of 62 participants, including 10 children with ASD, 41 caregivers, and 11 professionals from the multidisciplinary team. Data collection was conducted using methodological triangulation, involving semi-structured interviews, semi-open questionnaires, participant observation, and document analysis. The data were analyzed using thematic analysis, allowing the identification of categories related to parental engagement, communication between family and school, continuity of interventions in the home environment, and the determinants of family involvement. The results show that family involvement acts as a central mediating variable in the development of children, contributing to the consolidation of communicative, social, and behavioral skills. It was observed that more engaged families favor the generalization of learning and increase the effectiveness of interventions. Conversely, socioeconomic and institutional limitations impact the level of parental participation. It is concluded that the school inclusion of students with ASD should be understood as a systemic process, dependent on the articulation between family, school and multidisciplinary team, and the Family-Mediated Inclusion Systemic Model (FMISM) is proposed.

Keywords: Autism Spectrum Disorder; school inclusion; family involvement; inclusive education; child development

INTRODUÇÃO

A inclusão escolar de estudantes com o Transtorno do Espectro Autista -- TEA tem se consolidado como um dos principais desafios contemporâneos no campo da educação inclusiva, especialmente diante da ampliação do acesso à escola regular nas últimas décadas. No entanto, embora haja avanços significativos no âmbito legal e normativo, observa-se um descompasso persistente entre a garantia formal de direitos e a efetividade das práticas inclusivas no cotidiano das instituições escolares.

No contexto brasileiro, esse cenário torna-se ainda mais complexo quando analisado a partir de realidades regionais marcadas por desigualdades estruturais, como é o caso de municípios do Nordeste. Nessas localidades, limitações relacionadas à formação docente, à disponibilidade de recursos especializados e à articulação entre os serviços educacionais e de saúde impactam diretamente a qualidade da inclusão escolar.

Diante dessas lacunas, torna-se fundamental compreender quais são os fatores que atuam como mediadores do processo inclusivo. Entre eles, destaca-se o papel da família, frequentemente mencionado na literatura como elemento de suporte, mas ainda insuficientemente analisado como agente ativo na construção do processo educacional.

A participação familiar no desenvolvimento de crianças com o TEA ultrapassa o âmbito do cuidado cotidiano, configurando-se como um componente estruturante na consolidação de habilidades cognitivas, sociais e comunicativas. A continuidade das intervenções no ambiente doméstico, aliada à interação constante com a escola e com a equipe multiprofissional, potencializa significativamente os resultados obtidos por essas crianças.

Contudo, esse envolvimento não ocorre de forma homogênea. Fatores como condições socioeconômicas, acesso à informação, suporte institucional e organização familiar, influenciam diretamente o nível de participação dos responsáveis. Nesse sentido, analisar o envolvimento familiar sem considerar essas variáveis pode levar a interpretações simplificadas ou até mesmo, injustas.

Assim, este estudo parte do pressuposto de que a inclusão escolar de alunos com o TEA deve ser compreendida como um processo sistêmico, no qual a família não apenas participa, mas desempenha papel mediador fundamental. A partir dessa perspectiva, busca-se responder à seguinte questão de pesquisa: de que maneira o envolvimento familiar influencia os resultados acadêmicos e sociais de crianças com o TEA em contexto de inclusão escolar?

O objetivo deste trabalho é analisar a relação entre o envolvimento parental e o desenvolvimento de crianças com o TEA, considerando a interação entre família, escola e equipe multiprofissional. Como contribuição, propõe-se uma interpretação ampliada desse fenômeno, culminando na formulação de um modelo teórico que sistematiza os elementos essenciais para a inclusão efetiva.

REFERENCIAL TEÓRICO

A compreensão da inclusão escolar de estudantes com o Transtorno do Espectro Autista -- TEA exige uma abordagem teórica que considere o desenvolvimento humano como um fenômeno complexo, multidimensional e profundamente influenciado pelas interações sociais. Nesse sentido, este estudo fundamenta-se principalmente nas contribuições da teoria sociocultural de Vygotsky e da teoria ecológica do desenvolvimento humano de Bronfenbrenner, articulando-as com a literatura contemporânea sobre envolvimento familiar e educação inclusiva.

A PERSPECTIVA SOCIOCULTURAL DE VYGOTSKY E A MEDIAÇÃO FAMILIAR

A teoria sociocultural proposta por Vygotsky (2007) estabelece que o desenvolvimento das funções psicológicas superiores ocorre por meio da interação social mediada. O referido autor enfatiza que o aprendizado precede o desenvolvimento, sendo impulsionado por relações sociais significativas que permitem à criança internalizar conhecimentos, habilidades e formas de pensamento.

Um conceito central dessa teoria é a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP), definida como a distância entre aquilo que a criança consegue realizar de forma independente e aquilo que pode realizar com o auxílio de um mediador mais experiente. Nesse contexto, a família ocupa posição privilegiada, atuando como mediadora primária no processo de aprendizagem.

No caso de crianças com o TEA, essa mediação assume papel ainda mais relevante. Considerando as dificuldades inerentes à comunicação social e à interação, a presença de um mediador consistente e contínuo favorece a construção de vínculos, a ampliação da linguagem e o desenvolvimento de habilidades adaptativas. A família, ao estar presente no cotidiano da criança, possui maior oportunidade de reforçar aprendizagens, adaptar estímulos e promover experiências significativas.

Além disso, a mediação familiar permite a generalização das habilidades, aspecto frequentemente desafiador no TEA. Estratégias trabalhadas em contextos terapêuticos ou escolares podem não ser automaticamente transferidas para outros ambientes, sendo necessária a atuação intencional da família para consolidar esses aprendizados.

A TEORIA ECOLÓGICA DE BRONFENBRENNER E A INTERDEPENDÊNCIA DOS SISTEMAS

A teoria ecológica do desenvolvimento humano, proposta por Bronfenbrenner (1996), amplia a compreensão do desenvolvimento ao considerar a influência de múltiplos sistemas interativos. Segundo o autor, o desenvolvimento ocorre a partir da interação entre diferentes níveis ambientais, organizados em microssistema, mesossistema, exossistema e macrossistema.

No contexto deste estudo, destacam-se especialmente:

Microssistema: ambiente imediato da criança, incluindo família e escola

Mesossistema: interação entre os microssistemas (ex: relação família-escola)

A qualidade da relação entre família e escola, portanto, não pode ser analisada de forma isolada. Trata-se de uma interdependência dinâmica, na qual falhas em um sistema podem impactar diretamente o outro.

No caso de crianças com o TEA, essa interdependência torna-se ainda mais crítica. A ausência de comunicação entre escola e família pode comprometer a continuidade das intervenções, enquanto uma articulação eficiente pode potencializar significativamente os resultados do processo educativo.

Adicionalmente, fatores relacionados ao exossistema (como políticas públicas e acesso a serviços especializados) e ao macrossistema (valores culturais sobre deficiência e inclusão) influenciam diretamente as condições em que a família pode ou não se engajar no processo educacional.

ENVOLVIMENTO FAMILIAR E DESENVOLVIMENTO INFANTIL NO TEA

A literatura contemporânea tem demonstrado de forma consistente que o envolvimento familiar está associado a melhores resultados educacionais e sociais em crianças com o TEA. Segundo Dessen e Polonia (2007), a família constitui um dos principais contextos de desenvolvimento humano, exercendo influência direta sobre o desempenho escolar e a adaptação social.

Estudos na área do autismo indicam que intervenções que envolvem ativamente os pais tendem a apresentar maior eficácia (Schreibman et al., 2015). Isso ocorre porque os responsáveis passam a atuar como co-terapeutas, aplicando estratégias no cotidiano da criança e ampliando o tempo de exposição a estímulos estruturados.

Entretanto, é importante destacar que o envolvimento familiar não deve ser compreendido como uma variável puramente individual. Trata-se de um fenômeno condicionado por diversos fatores, incluindo: nível de escolaridade dos responsáveis, condições socioeconômicas, acesso à informação, suporte institucional e sobrecarga emocional e física.

Dessa forma, a análise do envolvimento familiar requer uma abordagem crítica, que considere as desigualdades sociais e evite a responsabilização exclusiva das famílias pelos resultados do processo educacional.

INCLUSÃO ESCOLAR COMO PROCESSO SISTÊMICO

A partir da articulação entre as teorias apresentadas, a inclusão escolar pode ser compreendida como um processo sistêmico, no qual diferentes atores e contextos interagem de forma contínua.

Essa perspectiva rompe com a visão tradicional de inclusão centrada exclusivamente na escola, ampliando o foco para a rede de relações que sustenta o desenvolvimento da criança. Nesse sentido, a efetividade da inclusão depende não apenas de práticas pedagógicas adequadas, mas também da capacidade de articulação entre família, escola e serviços especializados.

Assim, o envolvimento familiar deixa de ser visto como um elemento complementar e passa a ser compreendido como um componente estruturante do processo inclusivo, cuja ausência ou fragilidade pode comprometer significativamente os resultados alcançados.

METODOLOGIA

Este estudo caracteriza-se como uma pesquisa qualitativa, de natureza descritivo-exploratória, com delineamento de estudo de caso (Yin, 2015). A investigação foi realizada no Centro Horizonte Azul -- CHA, localizado em Arapiraca -- Alagoas, instituição especializada no atendimento a crianças com o Transtorno do Espectro Autista -- TEA.

Participaram do estudo 62 sujeitos, sendo 10 crianças e/ou pré-adolescentes com o TEA, 41 responsáveis e 11 profissionais da equipe multiprofissional. A coleta de dados foi realizada por meio de triangulação metodológica, utilizando entrevistas semiestruturadas, questionários semiabertos, observação participante e análise documental, garantindo maior consistência e confiabilidade aos dados.

A análise dos dados foi conduzida por meio da técnica de análise por objetivos e em seguida, a triangulação dos dados, que servirá para associar as informações quantitativas e qualitativas, garantindo maior validade e confiabilidade aos resultados. A interpretação será orientada pelos objetivos da pesquisa e fundamentada na literatura, buscando responder ao problema proposto e gerar conclusões consistentes.

No que se refere aos aspectos éticos, a pesquisa seguiu os princípios da Resolução Nº 466/2012 (Brasil, 2012), assegurando autonomia, beneficência, não maleficência, justiça e equidade. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Federal de Alagoas -- UFAL, sob o Nº 90267725.4.0000.5013 (CAEE). Foram aplicados o Registro de Consentimento Livre e Esclarecido e o Termo de Assentimento, garantindo participação voluntária, anonimato e confidencialidade dos dados.

4. ANÁLISE DOS DADOS

A análise dos dados foi conduzida a partir de uma abordagem temática, permitindo a identificação de padrões interpretativos que evidenciam a relação entre o envolvimento familiar e o desenvolvimento de crianças com o Transtorno do Espectro Autista -- TEA. Diferentemente de uma análise meramente descritiva, buscou-se compreender os significados subjacentes às práticas familiares e suas implicações no processo inclusivo.

A partir da sistematização dos dados, emergiram quatro categorias analíticas centrais: (1) engajamento parental como prática mediadora; (2) qualidade da interação entre a família e a escola; (3) continuidade das intervenções no ambiente doméstico; e (4) condicionantes estruturais do envolvimento familiar.

4.1 ENGAJAMENTO PARENTAL COMO PRÁTICA MEDIADORA

A análise revelou que o envolvimento familiar não se restringe à presença física ou ao acompanhamento passivo da trajetória escolar da criança. Ao contrário, os dados indicam que o engajamento parental assume caráter ativo e intencional, configurando-se como prática mediadora do desenvolvimento.

Famílias com maior nível de participação demonstraram envolvimento em atividades como: acompanhamento sistemático das tarefas escolares, aplicação de estratégias terapêuticas no ambiente doméstico, e interação contínua com profissionais da equipe multiprofissional.

Esse conjunto de práticas evidencia que o envolvimento parental atua como extensão das intervenções realizadas em contextos formais. Em termos analíticos, trata-se de um processo de co-mediação, no qual a família não apenas apoia, mas participa diretamente da construção do aprendizado.

Os dados indicam que, nos casos em que esse engajamento esteve presente de forma consistente, houve maior estabilidade no desenvolvimento das habilidades, especialmente nas áreas de comunicação e interação social. Isso sugere que a frequência e a qualidade das mediações são fatores determinantes para a consolidação dos avanços observados.

QUALIDADE DA INTERAÇÃO ENTRE A FAMÍLIA E A ESCOLA

Outro eixo relevante identificado na análise refere-se à qualidade da relação entre família e escola. Os dados demonstram que o nível de engajamento parental está diretamente relacionado à forma como a instituição escolar estabelece canais de comunicação e acolhimento.

Observou-se que contextos escolares que adotam práticas dialógicas -- como reuniões frequentes, devolutivas individualizadas e escuta ativa das famílias -- tendem a favorecer maior participação dos responsáveis. Nesses casos, a família se percebe como parte integrante do processo educativo, o que fortalece seu compromisso com as intervenções.

Por outro lado, em situações em que a comunicação se mostrou limitada ou excessivamente burocratizada, identificou-se um distanciamento progressivo da família. Esse afastamento não necessariamente reflete desinteresse, mas pode indicar barreiras institucionais que dificultam a participação.

Esse achado reforça a ideia de que o envolvimento familiar não pode ser analisado isoladamente, sendo necessário considerar as condições institucionais que facilitam ou restringem essa participação.

CONTINUIDADE DAS INTERVENÇÕES NO AMBIENTE DOMÉSTICO

A continuidade das intervenções fora do ambiente escolar emergiu como um dos fatores mais relevantes para o desenvolvimento das crianças com o TEA. A análise evidenciou que famílias que incorporaram orientações terapêuticas em sua rotina cotidiana obtiveram resultados mais consistentes ao longo do tempo.

Essa continuidade manifesta-se por meio de práticas como: estímulo à comunicação funcional, reforço de comportamentos adaptativos, e organização de rotinas estruturadas.

Do ponto de vista analítico, esse fenômeno pode ser compreendido como um processo de internalização ampliada, no qual os aprendizados deixam de estar restritos ao espaço institucional e passam a integrar o cotidiano da criança.

Nos casos em que essa continuidade não foi observada, os dados indicam maior instabilidade no desenvolvimento, com avanços pontuais que não se consolidam ao longo do tempo. Isso sugere que a ausência de reforço no ambiente doméstico limita a eficácia das intervenções realizadas pela escola e pela equipe multiprofissional.

CONDICIONANTES ESTRUTURAIS DO ENVOLVIMENTO FAMILIAR

Embora o envolvimento familiar se mostre central no desenvolvimento das crianças, a análise dos dados evidencia que esse engajamento não ocorre em condições homogêneas. Diversos fatores estruturais influenciam diretamente a capacidade das famílias em participar ativamente do processo educativo.

Entre os principais condicionantes identificados, destacam-se: limitações socioeconômicas, que impactam o tempo disponível e o acesso a recursos; nível de escolaridade dos responsáveis, influenciando a compreensão das orientações pedagógicas; sobrecarga emocional e física, especialmente em famílias com múltiplas demandas; e acesso restrito a serviços especializados, dificultando o acompanhamento contínuo.

Esses fatores revelam que o envolvimento familiar não pode ser compreendido como uma variável exclusivamente comportamental ou voluntária. Trata-se de um fenômeno socialmente condicionado, no qual desigualdades estruturais produzem diferentes possibilidades de participação.

Esse achado é particularmente relevante, pois evita a interpretação simplista que responsabiliza a família pelos resultados do desenvolvimento, deslocando a análise para uma perspectiva mais ampla e contextualizada.

SÍNTESE INTERPRETATIVA DOS ACHADOS

A integração das categorias analisadas permite afirmar que o envolvimento familiar atua como elemento estruturante do processo de inclusão escolar de crianças com o TEA. Mais do que um fator complementar, trata-se de uma variável mediadora que influencia diretamente a qualidade e a consistência dos resultados obtidos.

Os dados indicam que a presença simultânea dos seguintes elementos favorece o desenvolvimento: engajamento ativo da família, comunicação efetiva com a escola, e continuidade das intervenções no ambiente doméstico.

Por outro lado, a ausência ou fragilidade de qualquer um desses componentes tende a comprometer o processo inclusivo, evidenciando a natureza interdependente dos fatores envolvidos.

DISCUSSÃO

Os resultados deste estudo permitem uma interpretação ampliada do papel da família na inclusão escolar de crianças com o Transtorno do Espectro Autista -- TEA, evidenciando que o envolvimento parental não se configura apenas como fator de apoio, mas como elemento estruturante do processo de desenvolvimento.

À luz da teoria sociocultural de Vygotsky (2007), os achados reforçam a centralidade da mediação social na construção das funções psicológicas superiores. No contexto analisado, a família atua como mediadora contínua, ampliando a Zona de Desenvolvimento Proximal (ZDP) ao estender, no ambiente doméstico, as experiências de aprendizagem iniciadas na escola e nas intervenções terapêuticas. Essa continuidade permite não apenas a consolidação das habilidades, mas também sua generalização para diferentes contextos, aspecto frequentemente desafiador no TEA.

Entretanto, os resultados também indicam que essa mediação não ocorre de forma espontânea ou homogênea. Diferentemente de abordagens que tratam o envolvimento familiar como variável individual, este estudo evidencia que tal participação é profundamente condicionada por fatores estruturais, o que exige uma leitura crítica do fenômeno.

Sob a perspectiva ecológica de Bronfenbrenner (1996), observa-se que o desenvolvimento da criança com o TEA é influenciado pela qualidade das interações entre os sistemas nos quais ela está inserida. Nesse sentido, a relação entre família e escola -- componente do mesossistema -- mostrou-se determinante para o nível de engajamento parental.

Os dados indicam que, quando a escola estabelece práticas comunicativas dialógicas e inclusivas, a participação familiar tende a se intensificar. Por outro lado, contextos institucionais marcados por comunicação limitada ou pouco acessível contribuem para o afastamento dos responsáveis, evidenciando que o envolvimento familiar também é produzido (ou restringido) pelas condições institucionais.

Esse achado tensiona parte da literatura tradicional, que frequentemente atribui à família a responsabilidade primária pelo sucesso ou fracasso do processo educativo. Ao contrário, os resultados sugerem que o envolvimento parental deve ser compreendido como um fenômeno relacional, construído na interface entre família e instituição.

Outro aspecto relevante refere-se à função compensatória assumida pela família em contextos de vulnerabilidade institucional. Em situações nas quais a escola ou os serviços especializados apresentam limitações -- seja por falta de recursos, tempo ou formação específica --, a atuação familiar emerge como mecanismo de compensação, reduzindo parcialmente os impactos dessas fragilidades.

Essa dinâmica amplia a compreensão da inclusão escolar ao evidenciar que, em determinados contextos, a família não apenas complementa o trabalho institucional, mas assume papel central na sustentação do processo educativo. Tal constatação é particularmente relevante em realidades municipais, onde as desigualdades estruturais são mais evidentes.

No entanto, essa função compensatória também revela um paradoxo importante: ao mesmo tempo em que a família se torna essencial para o sucesso da inclusão, nem todas possuem condições equitativas de desempenhar esse papel. Fatores como baixa escolaridade, sobrecarga de trabalho, acesso limitado à informação e ausência de suporte institucional restringem significativamente a capacidade de engajamento.

Dessa forma, os resultados deste estudo reforçam a necessidade de deslocar o debate sobre inclusão escolar de uma perspectiva centrada exclusivamente na escola ou na família para uma abordagem sistêmica, que considere as interdependências entre os diferentes atores e contextos envolvidos.

Adicionalmente, os achados dialogam com estudos contemporâneos que destacam a eficácia de intervenções mediadas pelos pais (Schreibman et al., 2015), ao demonstrar empiricamente que a participação ativa da família potencializa os resultados do desenvolvimento infantil. Contudo, este estudo avança ao inserir essa discussão em um contexto de desigualdade regional, evidenciando que a efetividade dessas intervenções depende das condições concretas em que as famílias estão inseridas.

Outro ponto de destaque, refere-se à necessidade de redefinir o conceito de inclusão escolar. Os dados indicam que a simples inserção da criança no ambiente escolar não garante sua participação efetiva nem seu desenvolvimento. A inclusão, nesse sentido, deve ser compreendida como um processo que envolve: participação ativa, desenvolvimento de habilidades, e interação social significativa.

Esses elementos estão diretamente associados à qualidade das mediações estabelecidas, tanto no ambiente escolar quanto no familiar.

Diante disso, torna-se evidente que políticas públicas voltadas à inclusão precisam ir além da ampliação do acesso à escola. É necessário investir na formação de professores, na estruturação de equipes multiprofissionais e, sobretudo, no fortalecimento das famílias como agentes ativos do processo educativo.

CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo permitem afirmar que o envolvimento familiar constitui um elemento estruturante no processo de inclusão escolar de crianças com o Transtorno do Espectro Autista -- TEA. Mais do que um fator complementar, a participação ativa da família configura-se como condição essencial para a consolidação de aprendizagens, o desenvolvimento de habilidades sociais e a efetividade das práticas inclusivas.

A análise evidenciou que o engajamento parental atua como mecanismo de mediação contínua, ampliando os efeitos das intervenções realizadas no ambiente escolar e terapêutico. A continuidade dessas práticas no contexto doméstico favorece a generalização das habilidades e contribui para a estabilidade dos avanços observados no desenvolvimento das crianças.

Do ponto de vista teórico, este estudo contribui ao articular as perspectivas de Vygotsky (2007) e Bronfenbrenner (1996), demonstrando que o desenvolvimento da criança com o TEA ocorre na interseção entre mediação social e sistemas ecológicos interdependentes. Nesse sentido, a família emerge como um eixo central que conecta e potencializa os diferentes contextos de aprendizagem.

Entretanto, os achados também revelam que o envolvimento familiar não pode ser compreendido como uma variável isolada ou exclusivamente dependente da vontade dos responsáveis. Trata-se de um fenômeno condicionado por fatores estruturais, como condições socioeconômicas, acesso à informação e suporte institucional. Essa constatação reforça a necessidade de uma abordagem crítica que evite a responsabilização individual das famílias e considere as desigualdades que atravessam o processo inclusivo.

Adicionalmente, o estudo evidencia que, em contextos marcados por limitações institucionais, a família assume uma função compensatória, contribuindo para mitigar as fragilidades do sistema educacional. Essa dinâmica amplia a compreensão da inclusão escolar ao indicar que sua efetividade depende da articulação entre diferentes atores e não apenas, da atuação da escola.

A partir dessas evidências, propõe-se o Modelo Sistêmico de Inclusão Mediada pela Família (MSIMF), que compreende a inclusão como resultado da interação entre três eixos fundamentais: (1) família ativa e orientada, (2) escola inclusiva estruturada e (3) atuação multiprofissional integrada. A ausência ou fragilidade de qualquer um desses eixos compromete o processo inclusivo, evidenciando a natureza interdependente do modelo.

No âmbito das implicações práticas, os resultados indicam a necessidade de políticas públicas que promovam o fortalecimento das famílias, por meio de estratégias como: formação parental continuada, acompanhamento sistemático das famílias, ampliação do acesso a serviços especializados, e fortalecimento da comunicação entre escola e responsáveis.

No campo educacional, destaca-se a importância de práticas pedagógicas que valorizem a participação da família, reconhecendo-a como parceira no processo de ensino-aprendizagem.

Como limitações, este estudo apresenta o caráter qualitativo e o recorte específico do campo empírico, o que restringe a generalização dos resultados. Contudo, essa limitação não compromete a relevância das evidências produzidas, especialmente no que se refere à compreensão aprofundada do fenômeno em contextos municipais.

Por fim, recomenda-se a realização de estudos futuros que ampliem a análise para diferentes contextos regionais e utilizem abordagens metodológicas complementares, incluindo investigações quantitativas e longitudinais. Tais estudos podem contribuir para aprofundar a compreensão sobre os impactos do envolvimento familiar ao longo do desenvolvimento de crianças com o TEA.

Em síntese, este trabalho reafirma que a inclusão escolar efetiva não se realiza de forma isolada, mas por meio de uma rede de relações que envolve família, escola e sociedade. Nesse processo, a família não ocupa uma posição periférica, mas central, sendo indispensável sua participação para a construção de práticas educacionais verdadeiramente inclusivas.

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Editor Responsable:Luís Ortiz Jiménez. Universidad Autónoma de Asunción. Asunción, Paraguay. https://orcid.org/0000-0002-3943-1989

CONFLITO DE INTERESSE:Os autores declaram não ter conflito de interesse.

CONTRIBUIÇÃO DOS AUTORES:

Santos Bezerra, Mônica Vanderlei dos: Obtenção de dados, análise de dados, redação do artigo.

Ortiz Jiménez, Luís: Redação do artigo.

FINANCIAMENTO:Os autores declaram que o estudo não contou com financiamento.

Recebido: 15 de Maio de 2026; Aceito: 10 de Junho de 2026

Autor correspondiente: Mônica Vanderlei dos Santos Bezerra. Correo: monica.santos@arapiraca.ufal.br

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